Esta é uma reflexão a respeito da publicação de Comunhão Popular Núcleo Feminino em 6 de abril de 2026 sobre a última treta envolvendo o deputado de direita Guto Zacarias (Missão-SP, ligado ao MBL) e o tema do aborto.
Eis a publicação:
Doravante a reflexão:
A Comunhão Popular se declara “um movimento político e patriótico de inspiração cristã, pautado pela Doutrina Social da Igreja” (católica) e em seu Manifesto lemos que seus militantes são “conservadores e trabalhistas… solidaristas e adeptos da lei natural” (cf. https://comunhaopopular.org/). Lei natural em boa parte significa que o movimento é contra o aborto.
Não sou conservador, tenho simpatia pelo trabalhismo. Mas a questão é que o tema em tela é bem maior do que a contradição prática de mais um canalha da direita, e bem maior do que a contradição performativa do identitarismo abortista…¹ É um tema complexo que envolve liberdade concreta (social/individual), saúde pública e organização social. Penso que esses são princípios mais fortes, realistas e sensíveis (humanistas) do que uma defesa dogmática da vida desde o conceito arbitrário de concepção.
Arbitrário porque não é a concepção definida cientificamente, a qual não exclui a possibilidade de aborto mediante parâmetros de desenvolvimento do feto e de risco para a gestante (possibilidade inclusive garantida por lei); é uma concepção religiosamente fundamentada, que pode ter sua legitimidade no âmbito religioso/cultural (eu acrescentaria ‘por enquanto’), mas jamais se pretender universal.
Que a contradição prática apareça na “direita”, revela a hipocrisia e o autoritarismo desse lado – o que a sociologia da religião vem chamando de “teologia do domínio”. Que a contradição performativa apareça no identitarismo (que ainda cresce na “esquerda”), revela o grau da alienação material e intelectual de parte significativa da classe dos explorados.
De um lado, puro suco de liberalismo clássico, pois o liberalismo sempre contou com a desigualdade natural (quanto mais com a social). De outro lado, o liberalismo “descafeinado” (diria Zizek), enraizado, “dessublimado” – diria Marcuse, libleft para outros. E que também tem seu equivalente religioso: basta misturarmos a dose certa de teologia da cruz e teologia da gloria (sofrimento e triunfalismo). De ambos os lados, o aborto é sacralizado, absolutizado. E até onde vejo, também no movimento “pró-vida”, inversamente, claro, como tabu.
Esse slogan – pró-vida – deveria representar a luta a favor do pleno oferecimento de condições materiais dignas para toda a sociedade que já vive – e tenho certeza que muitos dos seus militantes também têm isso em vista; mas se reduz muito facilmente a um slogan que defende um dogma religioso (e, vá lá, apenas de determinadas religiões, não de todas), o dogma que determina incondicionalmente a vida dos que ainda não vivem. Aqui jaz o paradoxo medular do cristão: o paradoxo do já e do ainda não.
Mas o que importa mais? Viver a qualquer preço num mundo sem condições? Ou lutar pela verdadeira e universal “vida em abundância” (outro famoso slogan cristão) já aqui e certamente pelos que virão? Penso que a alegação de que as duas coisas podem ser defendidas simultaneamente também implica contradição, pois, como afirmado no início, penso que os princípios que orientam uma e outra são diferentes. No caso do “pró-vida” são princípios morais, não raro fundamentalistas, autoritários. No outro, princípios éticos, preocupados com a extensão universal de direitos sociais.
Essa é minha leitura em grandes linhas sobre o tema, e para preservar o espírito ecumênico (no caso, entre catolicismo e ateísmo), mantenho o diálogo aberto.
1. Quer dizer: de um lado há uma contradição prática evidente, uma hipocrisia como sugere a referida publicação; de outro, há uma contradição performativa da “esquerda identitária”, além de uma contradição lógica. A contradição performativa, no âmbito proposicional, é “uma contradição entre a proposição e os pressupostos pragmáticos do ato de fala que incorpora a proposição” (REPA, Luiz. Contradição Performativa. In: NOBRE, Marcos. Curso Livre de Teoria Crítica. Campinas: Papirus, 2009). Logo, a “esquerda identitária” incorre na contradição lógica de se dizer a favor da vida e a favor da morte (aborto) e antes mesmo na contradição performativa de defender algo que abole o próprio estar vivo de quem fala. A reflexão aqui sugere que o modo de reprodução social assentado no liberalismo capitalista revela contradições mais básicas, das quais procedem tais situações.