Em 2018, “This is America”, de Childish Gambino, ganha sucesso instantaneamente. A música expõe o way of life racista que persiste naturalmente nos Estados Unidos. Letra e clipe estão recheados de referências aos estereótipos negrofóbicos que aparecem ao longo da história americana. No mesmo ano, Spike Lee lança BlacKkKlansman, ou “Infiltrado na Klan”, outra notável abordagem crítica, porém datada, das mesmas questões. Dois exemplos atualíssimos de uma forma de encarar frente a frente (pleonasmo) o preconceito racial e suas variações. Forma geralmente aclamada pela sua contundência, bravura, mas que tem um problema.
Há um conhecido ditado popular mais ou menos assim: cuidado ao escolher o inimigo porque é nele que você se transforma. Daí surge uma hipótese: encarar tão direta e assertivamente o inimigo, apontá-lo tão objetivamente, pode ser sinal de que já se está transformado nele. Como? Ora, do mesmo jeito como alguém olha a própria imagem no espelho – ou no lago, como Narciso: o mais admirado de si era também, sem saber, o pior inimigo de si.
Também há um mito que estrutura Us e vai sendo contado ao longo do filme. Ele reúne materiais da realidade, sobretudo o movimento Hands Across America, de 1986. Esse movimento foi uma campanha beneficente para ajudar famintos e sem-teto promovida pela organização USA FOR AFRICA. Um ano antes essa organização fez o hit “We are the world”. A campanha consistia na compra de tickets para participar de uma corrente humana, símbolo da solidariedade. Foi arrecadado um valor bem abaixo das expectativas e, é claro, as mazelas sociais continuam até hoje. Portanto, Jordan Peele, o diretor, está fazendo uma crítica muito mais ampla, o inimigo é muito mais opaco. O mito é social. Mito é uma narrativa fantástica que pretende dar conta de uma contradição real, diz Levi-Strauss. Por que o eixo solidário que se supõe garantidor de uma sociedade não vale para a toda a sociedade e parece mesmo promover a exclusão de partes dela, em inúmeros níveis? Mais: por que esse modelo paradoxal não colapsa? Resposta mítica: a parte excluída e marginalizada está separada num mundo subterrâneo de túneis abaixo da parte socializada, onde se vive como animal. Por isso os dois mundos não se tocam e o caos não acontece. É interessante notar que o mito não resolve a contradição. Ele a explica, mas mantém sua tensão, por exemplo, em forma de maldição profética (Jeremias 11, 11). O mito suspende, é suspense, thriller.
Qualquer semelhança com As aventuras de Alice no País das Maravilhas (cujo título do manuscrito era Alice’s Adventures Under Ground, ou no “submundo”, no “mundo de baixo”) não é mero acaso. O país das maravilhas ou esse submundo é acessível através de uma toca de coelho na qual Alice entra. Lá ela descobre que as regras “de cima” não valem embaixo. E cedo essa contradição lança a própria Alice num autoquestionamento não meramente solitário, mas em relação ao mundo que a cerca: “Who in the world am I?” Pergunta cunhada na melhor tradição shakespeariana, daquelas que se faz em frente ao espelho da própria alma. Aliás, a continuação da história de Alice se chama Through the looking-glass…
Já a iminente distopia que pode advir do choque entre os dois mundos tem um curioso paralelo russo. No início da década de 1920, Yevgeny Zamyatin escreveu um dos primeiros romances distópicos, influente em obras como Admirável Mundo Novo e 1984, chamado coincidentemente “Nós” (traduzido em inglês por “We”). O One State é o equivalente panóptico do Big Brother e esse estado totalitário tem edifícios e interiores de vidro. Fora do estado, há uma espécie de “outernet” onde os homens experimentam uma suposta liberdade paradisíaca, também acessível por uma rede de túneis.
Esta referência levanta a questão: por que “Us” e não “We”? (that´s the puzzle). A primeira cena em que a família se depara com sua cópia na sala da casa responde esta e outras perguntas. “It’s us” diz o garoto. Ele não fala “they are” (eles são), mas “isso é”. E não fala “we”, um subject pronoun, e sim “us”, um object pronoun, pronome usado para a parte que sofre a ação numa proposição. Mais do que se ver como objeto, o que poderia ser a experiência da imagem no espelho, “Nós estamos ali como objeto”, mais que isso, o filme propõe a experiência de se saber, se conhecer como espelho, objeto e suspender identidades. Só existe essa superfície de vidro, fina e frágil, tal como a do espelho, a de um tampo de mesa ou a de um para-brisa – somos isso. A identidade, pelo menos da forma tradicionalmente praticada, forja o interior e o exterior, o dentro e o fora, o sujeito e o objeto, sempre um movimento de exclusão. Nesse movimento não importa tanto a identidade em si, mas a operação de se constituir excluindo. A inversão é apenas uma troca de máscaras. É por isso que a cópia, parte excluída no mito do filme, pode reivindicar a suprema identidade: “We’re americans”.
A precisão de Jordan Peele está exatamente na sua equivocidade. Ele não mira direta e incisivamente no problema específico do racismo ou do fundamentalismo de alguma ideologia, mas: 1º desloca o sério para o terreno despretensioso do suspense e da comédia, onde os preconceitos da própria seriedade são desarmados e só assim produz um real incômodo; 2º demonstra que a crítica daqueles pontos só pode ser feita a partir de uma crítica social mais ampla. Talvez haja uma inspiração de Frantz Fanon aí, cujo título de um dos mais famosos livros, “Peau noire, masques blancs”, denuncia um jogo de máscaras que, a rigor, qualquer lado pode jogar.
Apenas Adelaide completa a experiência de si como objeto e toma consciência do jogo de máscaras – que, aliás, pode ser jogado consciente ou inconscientemente; culpada ou inocentemente. Tanto que para conquistar sua identidade ela exclui, mata. No fim do pas de deux sobra pas les deux, apenas uma à custa da outra. No entanto, a ideia de uma dança a dois ainda acena para uma alternativa subjetiva e social pós-identitarismo.