Kafka para soterrados

Dinho Irlim* faz uma interessante leitura da dinâmica famélica do capitalismo vigente a partir de um mito narrado por Ovídio. O símbolo do bosque devastado ecoa diretamente no novo assassinato ecohumanitário de Brumadinho. Erisicton (a Vale) é o rei devastador que então é punido pelos deuses com uma fome insaciável. Mesmo contando com uma filha que sempre se metamorfoseia em diferentes coisas e pode ser infinitamente revendida (mais uma metáfora), Erisicton não se satisfaz e emagrece continuamente. Até que come a si mesmo.

Essa leitura me despertou outra baseada no tema da fome. Só que em vez da história de um personagem que come tudo, o pequeno conto de Kafka, Artista da Fome, fala de um personagem que não come nada. Em breve síntese, é a história de um faquir do jejum, um artista cujo espetáculo é ficar semanas sem comer e que conhece o sucesso e a decadência, embora sempre marcado por um “humor melancólico” que esconde o segredo de sua vida. E por onde uma metáfora da dinâmica capitalista por meio dessa parábola?

– alerta de spoilers; recomenda-se a leitura do conto (curtinho!) antes de seguir –

Notamos no início do texto que o artista da fome é comido. Ele é um dos muitos atrativos que o público “devora”, mas literalmente cansa de consumir e troca por outros espetáculos. Certamente, esse público pode comer literalmente qualquer coisa (talvez a gênese do capitalismo possa nos remeter a formação do primeiro organismo onívaro). A ideia de uma jaula ou vitrine através da qual esse artista é comido pelos olhos é muito emblemática da alimentação imagética virtual nos dias de hoje. Quando a moda dos artistas de fome passa, o jejuador arranja espacinho num circo até morrer. Mas há um consolo: “certamente os bons tempos do jejum um dia também voltariam…”

O segredo da sua vida trágica é revelado pelo artista da fome no fim do conto. Ele não encontrou o alimento que o agradasse e por isso jejuar era seu próprio modo de vida, sua dieta por assim dizer. Se tivesse encontrado ele “não faria alarde” e “se empanturraria” como todo mundo. Segundo Zizek, através de Lacan, “o nada comer” deste caso não é anorexia, e sim “comer o nada”, pulsão que se retroalimenta dela mesma, pulsão que o capitalismo encarna como modo de reprodução. Todos apanhados na pulsão, o artista tem diferenças quanto aos demais que podem se empanturrar de qualquer coisa – inclusive dele. Ele sofre da angústia de não encontrar o seu agrado. Podemos traduzir isso em termos do problema acerca da subjetividade chamada “pós-moderna”.

Ou ela cada vez mais se fragmenta e encontra indivíduos artistas bem versáteis capazes de assumir essa fragmentação. – Notemos que essa fragmentação na lógica capitalista tende inclusive à coexistência cínica de normas contraditórias ou da situação dita anômica, desde a passagem do modelo fortemente normatizado e repressivo ao liberal, do modelo industrial ao do consumo.

Ou a subjetividade arrebenta por não dar conta da multiplicidade dos papéis e das máscaras. – Lembramos que a ideia de anomia é apontada em Durkheim como um dos fatores do suicídio. Combina-se ainda a verificação de que o suicídio era maior nas camadas protestantes, o que ligamos imediatamente ao “espírito” do capitalismo segundo Weber, ainda que tal espírito não mostrasse toda sua perversidade e capacidade de metamorfose.

Ou subsiste na angústia de um vazio do que o jejum é um símbolo.

Kafka descreve essa angústia. O artista nunca estava satisfeito, porque por mais que seu jejum fosse perfeito, “era fácil” ele jejuar. Era isso que ele tentava mostrar, ou seja, sua realidade nua e crua. Sua arte era sua realidade. Mas o que se dava? A realidade não chegava aos espectadores como tal, mas como arte. E a arte tem pelo menos duas máscaras: dom divino ou truque demasiado humano. A arte-realidade do jejuador era vista tanto como heroísmo e estoicismo máximo, quanto como farsa incrivelmente bem feita.

Como o artista insistia na realidade da sua arte? Quando o show acabava ele não deixava a jaula e se recusava o alimento. Isso acontecia após 40 dias, prazo estipulado pelo empresário, talvez para não desafiar o recorde de Jesus. Na verdade, esse prazo não tinha nada a ver com protecionismo da mercadoria, a preservação da saúde do artista, mas com uma curva de interesse do público ao longo do tempo que justificava a rentabilidade do negócio.

No momento de resistência, Kafka faz uma pergunta decisiva: por que se interrompe o espetáculo? Ora, o que está realmente sendo admirado, se não deixam o jejum continuar? Apesar de não haver preocupação com a saúde do artista, são aquelas máscaras que precisam ser preservadas. O vazio angustiante precisa ser evitado. Aquelas máscaras oferecem realidades menos duras, mais divertidas e mantém o mercado em fluxo. Imagine se todos fossem como o artista da fome e não achassem nada que agradasse pra comer, não consumissem nada? Cobrindo o vazio, o simulacro de arte pelo menos tem um preço. A miséria alheia pode ser homeopaticamente consumida se nos propiciar a sensação da compaixão, do sofrer junto (sem sofrer realmente). “Mas então acontecia o de sempre. O empresário chegava e sem dizer uma palavra – a música tornava qualquer discurso impossível – levantava os braços sobre o artista da fome, como se convidasse o céu a contemplar sua obra sobre a palha, este mártir digno de compaixão – que o artista da fome de fato era, mas num sentido muito diferente…” E então “fazia o artista da fome engolir alguma coisa durante um semi-sono de desmaio…” Afinal, o show tinha que se repetir.

Assim como a moda do faquirismo acaba, mas há de retornar, e enquanto isso consome-se qualquer outra coisa, assistimos à Mariana, nos compadecemos, depois comemos outra coisa mais apetitosa e agora temos Brumadinho. O faquir também acaba consumindo alguma coisa qualquer para que retorne. Há uma relação possível aqui entre a subjetividade vazia e mascarada dele e a sociedade que de tempos em tempos o ovaciona. E isso deixa a análise do texto de Kafka mais complexa.

Segundo a interpretação mais clássica e rápida, Kafka está falando de si mesmo como artista numa época de decadência em que o artista se vê no paradoxo de submeter e enjaular sua arte segundo princípios essencialmente mercadológicos. Essa subsistência é marcada continuamente pela fome da plenitude de sua arte; plenitude que só pode ser vivida na fome até a morte. Se, no entanto, essa interpretação faz uma potente acusação da época de decadência em que ainda vivemos, ela falha se parar na vitimização do jejuador. Não. Kafka não para ai.

O jejuador, artista, se mostra um autoenganado até o fim. Ciente de seu mal-estar (não conseguir transmitir a realidade da fome) e ainda assim totalmente confundido com momentos de glória. Tanto que sente o abandono da multidão que não mais se encanta com a arte do jejum e chega, ironia Kafkiana, a demitir o empresário (!) e então se empregar no circo. Portanto, se existe a acusação de uma dinâmica alienadora, o homem fraco e raquítico é mostrado como incapaz de lutar contra sua situação até porque se autoincompreende nela. “Peço desculpas a todos… eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum… mas não deviam admirar”. A confusão é tanta que por duas vezes no texto o próprio miserável se encontra na posição de ter de ser desculpado!

Finalmente, se não é vítima, o jejuador também não é simplesmente o culpado da sua condição e Kafka ainda nos deixa a impressão de um sujeito que realizou a sua arte em plenitude e foi fiel à sua fome. Somente essa plenitude daquilo que mostra radicalmente sua diferença conclama compaixão, porque vale a pena, com o perdão do trocadilho. Esqueçam a “dignidade humana”, conceito supremo da burguesia (cf. Adorno, Anotações sobre Kafka). É na sublime dignidade de animais que os afundados na lama de Brumadinho acusam fome e vazio muito maiores do que a nossa “compaixão artística” vai momentaneamente se comprazer em saciar. A metamorfose do humano em animal, um tema kafkiano por excelência (vide Gregor que morre como inseto em A Metamorfose, e o próprio artista da fome que vive e morre enjaulado como animal), parece sinalizar uma vocação trágica típica da modernidade que talvez só possa encontrar sua plenitude na morte – ainda.

* Cf. “Brumadinho no estômago da Vale: as metamorfoses do capitalismo”, publicação de 28/01/2019 no Facebook.

Deixe um comentário