ARQUEOLOGIAS

O documentário ARQUEOLOGIAS – EM BUSCA DOS PRIMEIROS BRASILEIROS, exibido no Curta, é absolutamente fundamental. Assim como as palestras do professor Eduardo Góes (MAE-USP). Há alguns capítulos do documentário no Youtube e várias entrevistas e falas de Góes.


Segundo um modelo de pensamento talvez ainda hegemônico, a agricultura na virada do Neolítico teria sido o grande possibilitador da fixação e do adensamento populacional, que resultaria no surgimento dos primeiros estados, urbanizações, etc.

Estudos arqueobotânicos das ocupações amazônicas em torno do ano mil apontam que a agricultura tinha papel secundário (a terra preta residual) e o grande fator para os sítios urbanos era o rio e não a várzea. Ainda concentrados na caça e na pesca, portanto, “atrasados”, os índios poderiam ter alcançado 10 milhões de indivíduos. Com a chegada dos colonizadores, trazendo armas e doenças, as populações indígenas foram drasticamente diminuídas e por volta do século XVIII instala-se o mito do vazio verde e virgem. Este mito autoriza as investidas do progresso, do “aproveitamento da terra”, mesmo que sejam mitigadas pelas unidades de conservação, instaurando uma lógica dicotômica do tocável e do intocável. Isso não existe. Metade das espécies de árvores dominantes na Amazônia foram domesticadas, segundo aqueles estudos – e isso sem que a agricultura fosse o carro-chefe! Significa que a floresta foi construída pelos índios também.

Não existe o “natural”. O modelo de pensamento mesopotâmico que legamos é o da escassez, é o domínio da agricultura, é o de Gênesis 3, 19: “com o suor do teu rosto, comerás o teu pão”. É a partir daí que se convencionou pensar progresso, desenvolvimento, história. O pensamento tropical indígena é o da abundância, das grandes populações que “desperdiçaram” a agricultura.

Evidentemente, o problema aqui não é a técnica, mas que tipo de pensamento faz uso dela.

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